Skip to content
  • Blog
  • Projetos

Muito bem, Carolina!

4. Juni 2020 by lucioneia

Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, foi escrito entre 1955 e 1960. Mas, infelizmente retrata a situação atual do Brasil, em pleno 2020, que está sendo ainda mais agravada com a chegada do Covid-19.

Depois de finalizar a leitura do livro, assisti a fala da historiadora Elena Pajaro Peres. Ela amplia lindamente a visão sobre Carolina Maria de Jesus para além da „escritora da favela“, mostrando um pouco de sua vida antes de chegar no Canindé, a favela onde morou por mais de dez anos em São Paulo.

Selecionei alguns trechos do relato de Carolina para fazer parte desta resenha. Acredito que ela é a pessoa, que pode falar com total propriedade sobre essa obra tão impactante.

„É preciso conhecer a fome para saber descreve-la.“

E essa fome, onipresente em sua vida/obra, tem cor: amarela. Aliás, Carolina Maria de Jesus fala muito em cores durante os curtos e escassos momentos em que não está catando papel pelas ruas de São Paulo. A forma e olhar como observa e descreve momentos de seu dia, como o sol (o „astro rei“), céu, estrelas, universo traz a sensibilidade de quem sabe observar.

„O céu já esta salpicado de estrelas. Eu que sou exotica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido.“

Carolina tinha um objetivo e sabia que sua escrita merecia ser publicada. Relato e crítica. Uma denúncia sobre a forma desumana como as pessoas são tratadas. Quarto de Despejo, foi assim que ela descreveu a favela. A Sala de Visitas é o centro da cidade de São Paulo, onde as pessoas vivem em casas de alvenaria e tem o que comer, várias vezes ao dia, todos os dias.

„Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos. Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.“

Catar papel, ferro, estopa e comida para sobreviver e criar, sozinha, uma filha e dois filhos. Carolina Maria de Jesus não media esforços. Pelas descrições podemos imaginar o quanto ela caminhava por dia. Descrevia com bastante precisão quanto recebia e quanto gastava para alimentar a filha e os filhos. Carolina ficava triste quando chovia. Ainda mais quando chovia aos sábados. Sem conseguir catar papel, não teria dinheiro para comprar comida e no dia seguinte, domingo, não teria nada para alimentar as crianças. Quantas Carolinas existem hoje no Brasil?

Trago uma reflexão, feita pela própria escritora:

„Eu prefiro empregar o meu dinheiro em livros, do que no alcool. Se você achar que eu estou agindo acertadamente, peço-te para dizer:
– Muito bem, Carolina!“

No início de 1960, Carolina Maria de Jesus finalmente viu seu nome brilhar na capa do livro como autora. Quarto de Despejo se tornou um enorme sucesso editorial. Em três dias foram vendidos mais de 10 mil exemplares e chegou a ser traduzido para mais de 10 idiomas.

A leitura do Quarto de Despejo traz não só a certeza da grande escritora, poeta, crítica e lutadora que Carolina Maria de Jesus foi. Mostra, também, o grande abismo que ainda encontramos em nosso país – onde os políticos, tão dura e legitimamente criticados por ela, ainda hoje, viram as costas para a população pobre, negra e da favela.

„O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.“

Stay safe, Luci

Livro – Quarto de Despejo – Diário de uma favelada
Disponível em vários idiomas. Em inglês (Child of the Dark), alemão (Tagebuch der Armut).
Autora – Carolina Maria de Jesus

Outras obras de Carolina Maria de Jesus
Casa de Alvenaria (editora Francisco Alves), 1961
Provérbios (editora Átila), 1963
Pedaços da fome, (editora Átila), 1963
Diário de Bitita, (editora Nova Fronteira)

Referências bibliográficas:

Programa NAÇÃO – (em dois episódios)
Episódio 1 – Com depoimentos da escritora Conceição Evaristo e escritor Jeferson Tenório.
Episódio 2 – Com depoimentos da escritora Conceição Evaristo e escritor Jeferson Tenório e curta-metragem „O Papel e o Mar“.

Radio Batuta
Carolina de Jesus – uma voz soberana – 15 minutos

Blog – Instituto Moreira Sales
Carolina Maria de Jesus e a favela – entrevista sobre as filmagens do doc „Favela: a vida na pobreza“ (dirigido pela alemã Christa Gottmann-Elter, 1971). Na época censurado pela ditadura no Brasil. 10 minutos

Blog – Instituto Moreira Sales
Debate com o jornalista Audálio Dantas (quem descobre e compila as obras de Carolina Maria de Jesus) e com a professora e crítica literária Marisa Lajolo. 1 hora

Revista Geni
Drama da favela, poeta da vida. Artigo escrito por Cícero Oliveira

Post navigation

Previous Post:

Aprumando o rumo

Next Post:

Conhecendo um Coworking Space em Zurique

Schreibe einen Kommentar Antwort abbrechen

Deine E-Mail-Adresse wird nicht veröffentlicht. Erforderliche Felder sind mit * markiert

5 + 2 =

Visit Us On InstagramVisit Us On LinkedinVisit Us On FacebookVisit Us On Youtube

„Há dias que vermelho paixão, outros cinza tempestade „
Entre livros, viagens, arte e pensamentos.
Welcome, Luci de Lima Strijbis

cidade base

Zurique

Natural de Recife – PE – Brasil

Artigos

  • Você visita sempre os mesmos lugares? 7. Januar 2021
  • “Ain’t I a Woman” 9. Dezember 2020
  • A trança que nos une 28. Juli 2020
  • O Pequeno Nicola e a grata surpresa 22. Juli 2020
  • Conhecendo um Coworking Space em Zurique 30. Juni 2020
© 2026 serendipity | Built using WordPress and SuperbThemes